Fragmentos do texto da
exposiçäo ˜Horizontes Flutuantes˜
por ANA CARLA SOLER
˜O que ela {Tatiana Clauzet} produz, imageticamente, são registros de encontros em viagens e diálogos com territórios que a transformam tanto quanto são por ela contemplados.
Este deslocar-se é central para compreender seu trabalho. Há quase três décadas, Tatiana se move entre geografias. A artista nasceu em São Paulo, viveu por anos entre Brasil e Austrália e hoje mora e trabalha na Floresta de Itatiaia. Seu ateliê é dentro da mata e suas janelas contemplam os troncos e copas de árvores, plantas epífitas e arbustos mais altos.˜
˜Cada trabalho acontece porque os sentidos da artista estão aguçados na percepção do entorno e do próprio subconsciente, que cuidadosamente abre espaço para se manifestar. Comumente, Clauzet materializa nas telas animais e paisagens dos micro-ambientes que pesquisa. Em contraste com a tradição geométrica presente no cânone da arte brasileira, que conquistou territórios na abstração, os elementos figurativos que a artista cria têm contornos marcados por ângulos estruturados. É nesse gesto de escolha contínua e subjetiva, que se liberta da intenção de afirmar a forma como uma estrutura soberana.˜
˜Como fizeram artistas modernos ao romper com padrões acadêmicos e buscar outras formas de narrar o país, Tatiana também recusa a visão naturalista e clássica. Entretanto, a busca por encontrar e retratar a farta natureza e cultura do país é repertório que a artista carrega sem o peso de referenciar. Esse encontro entre o movimento artístico-estético e as investigações de Clauzet são parte das sinergias que orientam sua prática.˜
˜Se o modernismo nos empresta uma possível interpretação da busca por uma linguagem para narrar a identidade nacional, Tatiana reabre esse debate deslocando o centro da narrativa para os seres não-humanos que compõem a tessitura do mundo. Ali o encontro entre espécies, territórios e fabulações escapam à catalogação domesticadora.˜
˜Nessas jornadas, presenciamos a artista-viajante, que se deixa inundar pela paisagem, e a artista-pesquisadora, que se encontra como protagonista na própria saga. Tatiana Clauzet não busca na arte canalizar a vida em simbiose com o entorno, mas documentar um modo de existir que não a separa do meio.˜
TEXTO NA INTEGRA, AQUI.
"Começei a pintar na Austrália, em 1998. Imersa na natureza crua do deserto australiano, por cinco meses mergulhei na paisagem externa e interna e comecei ali minha Arte.
Voltei ao Brasil no ano 2000 com o objetivo de vivenciar a abundante natureza de minha terra natal e incorporar esse contraste ao meu trabalho. Em 2001 montei meu Atelier em meio a Mata Atlântica onde as cores e formas desse rico ecossistema influenciaram profundamente minhas obras.
Desde o inicio de minha carreira tenho feito diversas viagens para enriquecimento de minha arte. Por vários anos seguidos visitei Parques Nacionais do Brasil. Em 2007 uma viagem ao Peru e Bolivia rendeu inspiração para as obras da exposição “Janelas do meu Pensamentos”. Em 2008, morei por 5 meses no sul da Bohemia na República Tcheca onde participei de uma residência artística no Egon Schiele Art Centrum no qual desenvolvi mais um vértice em minha arte, a pintura em papel. Em 2009 os 3 meses na Africa do Sul aprofundaram meus estudos nas formas animais. Em 2017 foram 9 meses viajando pela Austrália em um processo intenso de reviver e relembrar o início de minha jornada e aprofundar minhas investigações artísticas. Em 2024 retornei a Austrália para mais 9 meses de viagem rumo ao oeste, explorando o Mallee, um ecossistema rico e único.
Hoje me divido entre o Atelier no sul do estado do Rio de Janeiro e longas viagens de estudo e imersão. Essas longas temporadas de “studio móvel” - como costumo chamar - são uma importante parte do meu trabalho onde novos elementos, cultura e principalmente novas paisagens internas e externas formam a matéria prima para as novas obras.
Minha arte vem preponderantemente da minha relação com a Natureza, é dela que trago as palavras pintadas do que quero dizer e trazer ao mundo."
"I started painting in Australia in 1998. Immersed in the raw nature of the Australian desert for five months I plunged myself into the outer and inner landscape and began my artistic journey.
I returned to Brazil in 2000 with the purpose of experiencing the abundant Nature of my native land and incorporate this contrast to my work. In 2001 I set up my Atelier in the midst of the Atlantic Forest where the colors and shapes of this rich ecosystem profoundly influenced my works.
Since the beginning of my career I have made several trips to enrich my art. For several years in a row I visited National Parks of Brazil. In 2007 a trip to Peru and Bolivia gave inspiration to the works of the exhibition "Windows of my Thoughts". In 2008, I lived for 5 months in southern Bohemia in the Czech Republic where I participated in an artistic residence at the Egon Schiele Art Centrum where I developed another support in my art, the painting on paper. In 2009 the three months in South Africa deepened my studies on animal forms. In 2017 was the year to do a 9 months travel through Australia to revive and remember the beginning of my journey as an artist and to dive into new artistic expressions. In 2024 I returned to Australia for another 9 months travelling from east to west, exploring the Mallee region, a rich and unique ecosystem.
Today I divide myself between the Studio in the south of the state of Rio de Janeiro and long trips of study and immersion. These long seasons of "mobile studio" - as I call it - are an important part of my work where new elements, culture and mainly new interior and exterior landscapes form the raw material for the new expressions.
My art comes preponderantly from my relationship with Nature, it is from it that I bring the painted words of what I want to say to the world."